Por Joana Alegre


“Hoje, e desde que existimos na possibilidade de aceder ao conhecimento, é inquestionável que se é melhor músico quando se lê muito, em qualidade, e vice-versa. Não é possível ter voz artística, se não se viver esta correlação intensa e secular entre a poesia e a música (…).”

No início estava o som, vem do peito e nasce na voz, antes da palavra, na manifestação primordial da expressão humana, evoluindo ao longo dos tempos no sentido da fala. Quem sabe a primeira fonética tenha sido mais cântico, transbordo de emoção vocalizada? Ao longo do tempo, na repetição cadenciada dos rituais e celebrações, foi-se definindo, concentrando mais e mais subtileza e significado, sofisticando-se, para finalmente chegar à fala e à linguagem.

Da fala à simbologia inscrita na pedra, e depois finalmente a palavra escrita e dita, cantada. Na génese desta evolução está um código sonoro e rítmico, fluído e variado, vem desde o pulsar, da frequência cardíaca, a toada por dentro da métrica, a acentuação de tempo, da sílaba ao tanto que engloba a prosódia, na riqueza de tudo o que sensorialmente se intui e se transmite através do som que sai de nós. Depois então pede para ser escrito, embora muitas vezes também peça para ser escrito num grito mudo solto na página, de um só rasgo, antes do som da voz.

Faz parte da natureza humana, a emoção e o impulso da partilha, que nos são inerentes e importantes motores de transformação, e em particular, também catalisadores desta dialética complexa entre o som de dentro e a formulação estruturada da expressão oral e escrita.

Acredito que a oralidade e a linguagem da música são primordiais, e estão, como a poesia, antes da literatura. A literatura, a prosa nas suas várias formas de parente próximo, é também alimento da música, mas a primeira não existe sem a segunda, e o inverso não se verifica. Ezra Pound dizia no seu “ABC of Reading” que a poesia e a música nasceram juntas e que quando a poesia se afasta da música, perde-se, e mesmo até, que a poesia não será bem literatura. Outro grande poeta do século 20, o francês Paul Valery, afirmou que a poesia seria uma “hesitação entre som e sentido”.

 "Os grandes escritores, poetas, cantautores, trazem em si esse domínio do canto livre associado ao poder da mensagem escrita"

Hoje e desde que existimos na possibilidade de aceder ao conhecimento, é inquestionável que se é melhor músico quando se lê muito, em qualidade, e vice-versa. Não é possível ter voz artística, se não se viver esta correlação intensa e secular entre a poesia e a música, e simplesmente não se é tão completo como indivíduo, se não formos seres culturalmente letrados, sensíveis e instruídos.

A intemporalidade de uma obra superior, bem-sucedida nesta simbiótica entre o canto e a palavra, encontra-se não só nas formas que conhecemos pós modernistas e de toda manifestação contemporânea, mas também pelo trilho de maturação cultural, consolidado ao longo dos séculos, desde a antiguidade clássica, e mais adiante com uma afirmação claríssima no estilo provençal ou trovadoresco, e as cantigas de amigo do século XI/XII e depois no Madrigal entre os séculos XIII e XVI. Os poetas provençais escreviam, compunham, cantavam ou diziam a sua poesia e acompanhavam-se tocando um instrumento. Pode dizer-se que foram os primeiros cantautores. Os grandes escritores, poetas, cantautores, trazem em si esta mistura quintessencial, esse domínio do canto livre associado ao poder da mensagem escrita e cantada, tantas vezes cruzando-se e rompendo barreiras, criando novos espaços de expressão, aprofundando a consciência crítica e a sensibilidade, e não raramente até contribuindo para a abertura do espaço público e mudanças profundas na sociedade.

A música considerada intemporal, geralmente traz mensagens prementes e que se mantêm atuais nas ânsias, também elas intemporais, características do ser humano, sempre na sua busca kantiana de mais e melhor. Por isso a arte é tão fundamental, porque nos conduz nessa senda, pelos caminhos através dos quais só atravessamos levados pela arte.

Referências imediatas que vêm à cabeça, o folclore tradicional de cada país, continuamente celebrado e retransmitido e reinventado, os Realbooks dos standards de jazz que atravessam todos os dias de chuva e um copo de vinho, e os espirituais negros ou canções de trabalho, no clamor da liberdade, alavancando o movimento de libertação dos afro-americanos, e ainda a canção de intervenção e os autores dos anos 60, como Bob Dylan (prémio nobel de literatura), Violeta Parra, Joan Baez, Leonard Cohen, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Joni Mitchel, Patty Smith, ou ainda porque não referir o despontar de uma era única, plena de mulheres cantautoras como Florence Welch, Maggie Rogers e Aurora Aksnes, e tantos outros, incontáveis, mas que personificam a verdadeira aceção desta fórmula inquebrável onde uma canção pode ser um grande poema e vice-versa.

No Dia Internacional da Música e pela pertinência desta temática, será conveniente informar o leitor que dia 5 de outubro, no Teatro São Luiz a música portuguesa irá celebrar a poesia de um dos seus poetas mais cantados de sempre, Manuel Alegre. Com Ana Bacalhau, Jorge Palma, Camané, Agir, Cristina Branco, e contributos especiais da singular Maria Bethânia e de Carlão, estão todos convidados para o nosso concerto de poesia maior em vice-versa, “Um Só Dia”.

 


SOBRE A AUTORA:

Joana Alegre é uma cantautora Indie Folk/Baroque Pop de formação Clássica e Jazz - Academia Duarte Costa, Hot Club de Portugal, Summer school New School NY e Meredith Monk House Foundation. Formada em Ciência Política e Relações Internacionais, e com mestrado em Comunicação e Cultura, seguiu a formação Jazz na Escola Luís Villas-Boas do Hot Club de Portugal, e estudou também na Escola de Verão em Veneto, Itália, da New School For Jazz and Contemporary Music - Universidade em Nova Iorque. Frequentou o curso multiperformativo da Meredith Monk House Foundation, e aprendeu com grandes nomes como Rogerio Boccato, Theo Bleckmann, Amy London, Steve Coleman ou Aaron Goldberg. Estreou-se a solo num concerto no mítico The Shrine.

 No regresso a Portugal, participou no musical “O Fantasma de Chico Morto”, e integrou o coro Gospel Collective como solista e vocal coach. Conta com várias colaborações com músicos de renome do jazz, rock e da pop nacionais, entre os quais Mikkel Solnado com quem faria o conhecido dueto “E Agora?” e que viria a produzir o seu primeiro disco, “Joan & The White Harts”, com o qual foi cantautora semifinalista no International Songwriting contest em 2016 e em 2019. Mais recentemente foi finalista do The Voice Portugal 2019/ 20.

Atualmente está a gravar o seu segundo álbum de originais com produção de Luísa Sobral, e trabalha como compositora, letrista e vocal coach na produtora Great Dane Studios.