"Quando oiço chamarem-me ilustrador ou cartunista dá-me vontade de rir"

Hugo van der Ding
No primeiro encontro com a Livraria Lello, Hugo Sousa Tavares, mais conhecido como Hugo van der Ding, fez questão de ter as suas estantes carregadas de livros como cenário. Dos serões, na infância, a recitar Os Lusíadas de cor para impressionar os adultos, ao desejo de se tornar escritor a tempo inteiro, passando pelo livro que o acompanha em todas as viagens, numa conversa bem-humorada – como não podia deixar de ser –, Hugo van der Ding revelou uma íntima relação com o mundo dos livros.

Livraria Lello: Nasceste numa noite de Natal, no final dos anos 70. Como passavas os teus dias em criança?

Hugo van der Ding: Cresci como filho único e, como todos os filhos únicos, fui desenvolvendo um universo muito particular. Antes de ir para a escola, os meus amigos eram bonecos “Play Mobil” e criava filmes com eles.

LL: Essa realidade também favoreceu a tua relação com os livros?

HVDD: Sim. Leio muito, desde criança. E também já escrevia os meus filmes e as minhas peças de teatro.  Foi uma infância muito rica em ideias dentro da cabeça.

LL: Qual o primeiro livro que te lembras de ler?

HVDD: Adorava ser como um amigo meu, que o primeiro livro que leu foi Os Filhos da Droga da Christiane F., que roubou ao irmão mais velho. Mas não foi o meu caso. A minha relação com os livros é tão antiga que é difícil dizer qual foi o primeiro livro que li. Cresci rodeado de livros e ainda vivo rodeado de livros, até hoje. Li os livros de aventuras que todas as crianças liam e lembro-me de, ainda muito criança, ter apanhado Os Lusíadas. É capaz de ter sido mesmo dos primeiros livros que li completo. Depois, a minha mãe usava-me naqueles momentos com amigos em casa, para recitar de cor grandes trechos d’ Os Lusíadas, e os adultos ficavam fascinados. [risos]

LL: Nessa altura, o que respondias quando te perguntavam o que querias ser quando fosses grande?

HVDD: Já nessa altura tinha a ideia de estudar Direito, para poder seguir uma carreira diplomática e viajar muito. Tinha a ideia que ser diplomata era viajar e passar o tempo em festas. Agora, tenho alguns amigos diplomatas e descobri que, afinal, ser diplomata é viajar e passar o tempo em festas. Houve ainda uma altura no liceu em que tive aulas de teatro e pensei – afinal quero ser ator – mas depois, na altura de escolher o curso, segui o que tinha desde criança na cabeça. Inscrevi-me no curso de Direito e lá andei, três anos. Depois deixei a faculdade e fui viajar. Estive fora do país naquela idade entre os 20 e os 30 anos.

LL: Essa experiência deu-te mais do que qualquer licenciatura poderia ter dado?

HVDD: Claro! É uma experiência que aconselho sempre. Foi uma altura muito formativa da minha vida. A minha ideia original era sair daqui e passar seis meses em cada país, mas acabei por viver só em dois. Estive alguns meses em Londres e passei o resto desses anos em Amsterdão. Uma cidade onde há gente de todas as nacionalidades e conheces pessoas de diferentes culturas. Viver em Amsterdão foi conhecer o mundo.

LL: Que livros te acompanharam nessa aventura? Levaste muitos livros contigo? Trouxeste muitos livros?

HVDD: Amsterdão é uma cidade extremamente pequena e muito povoada, portanto ter casa é muito complicado, por isso mudei muitas vezes nos primeiros anos, e, como mantive o meu apartamento em Lisboa, enchia regularmente uma caixa com livros e mandava para Portugal. Comprava muitos livros, até porque, para além de ler, coleciono livros.  Conheci muitos autores holandeses. Foi nessa altura que me apaixonei pela literatura asiática, por escritores do Paquistão, Afeganistão, África.

LL: Também recebeste essa multiculturalidade de Amsterdão através da Literatura…

HVDD: Sim, porque os livros que nós lemos, quando somos adolescentes ou jovens adultos, passam a fazer parte da nossa identidade. De facto, aquilo que os meus amigos portugueses leram nessa fase não é exatamente o que os holandeses leem, ou os alemães, ou os franceses. Quando conhecia pessoas de outras nacionalidades partilhávamos os livros que faziam parte da nossa experiência e isso foi muito enriquecedor.
Hugo van der Ding
LL: És um leitor voraz assumido e também colecionador de livros. Isto é compatível com uma imagem de pessoa cool e divertida?

HVDD: Não sei a imagem que as pessoas têm de mim… Mas, mesmo quando estou a trabalhar muito, como é o caso deste momento – tenho o programa de rádio e estou a ensaiar uma peça –, preciso de ler todos os dias, nem que seja uma página. Faz-me imensa confusão quando as pessoas dizem que não gostam de ler. Para mim, era a mesma coisa que dizerem que não gostam de comer ou de dormir. Ler não é uma atividade planeada, simplesmente acontece. A leitura é o meu espaço de introspeção. Leio Literatura, mas também livros de História ou de Ciência. É quando fico fechado nas minhas ideias… Também acontece com frequência ter de voltar cinco páginas atrás, para perceber – “ah afinal eles são irmãos” –, porque, entretanto, já me perdi. Deve ter-me acontecido isso n’Os Maias. [risos]

LL: E como colecionador, qual é a tua relação com o livro?

HVDD: Nos últimos 10 anos, mudei de casa três vezes – o que já é uma média bastante chata –, e os livros já são a parte mais complicada da mudança. Tenho uma relação especial com os meus livros. Por exemplo, sei exatamente qual é o meu livro favorito, e sei que é por ser aquele objeto. Foi um livro que me foi dado pela minha melhor amiga, quando fui morar para fora, Anatomia da Errância, de Bruce Chatwin. Não é o meu livro preferido pelo que lá está escrito, mas é o meu livro/objeto preferido, e vai sempre na minha mala quando faço uma viagem. E adorava colecionar livros raros e primeiras edições. Ainda não o faço muito, mas tenho algumas histórias incríveis com livros que comprei por acaso. Costumava ir a uma feira que há todas as sextas-feiras, no centro de Amsterdão, e uma vez encontrei um livro de uma das aventuras de Maigret (de Georges Simenon), que tinha sido publicado durante a guerra e, por isso, era uma edição muito limitada. Estava impecável e paguei três euros por ele. Aliás, nem sequer paguei, porque os pedi emprestados a uma amiga que estava comigo. Um pouco mais à frente, fui abordado por outro vendedor que me disse: “Escolha todos os livros que quiser em troca desse”. Quando fui para casa e consultei o último preço a que o livro tinha sido vendido em leilão, percebi que valia três mil euros.

“Nunca pensei que os meus desenhos, tão básicos e primários, fossem o centro da minha profissão.”

LL: A experiência de comprar livros numa livraria é importante para ti?

HVDD: Sim, é! Os livros vendem-se hoje em muitos locais, mas nas livrarias estabelece-se uma relação. É-se fiel a uma livraria. Até podes não falar com ninguém que lá trabalha, mas comunicas. Quando entras numa livraria, há uma comunicação através da seleção das obras, na maneira como estão dispostas, nos autores que estão em destaque. Os livreiros estão a falar contigo e a guiar-te, quase ideologicamente, através de sugestões de leitura. As livrarias têm este papel fundamental de mostrar o mundo. Para além de haver certas e determinadas livrarias que são também monumentos e espaços incríveis.

LL: Já visitaste a Livraria Lello?

HVDD: Sim, já visitei várias vezes! Ia mais quando não existia uma fila tão grande. Mas fico mesmo contente que as pessoas fiquem horas numa fila para ver aquela que é considerada a Livraria Mais Bonita do Mundo. É um luxo tê-la no Porto.

LL: Que palavra ou expressão escolherias para definir a Livraria Lello?

HVDD: Eu sou muito parco em adjetivos, uso só um que é “AWESOME!”. Não poderia escolher outro! [risos]

LL: Voltemos ao teu percurso. Foi já em Portugal, quando eras tradutor literário, que começaste a desenhar as tuas tiras. Como é que surgiram as primeiras personagens?

HVDD: Essa história é muito engraçada. Faço estes desenhos desde criança e eram só mesmo brincadeiras. Um dia, há 10 anos, tive uma ideia de um jogo de palavras: “Será que uma criada ser malcriada é motivo para despedimento por justa causa?”. Partilhei esta ideia com um amigo e ele disse-me: “Não me chateies, vai para casa, e faz uma página de Facebook com isso!”. E eu fiz mesmo, mas só para ele se rir. Aquilo acabou por ter imenso sucesso. Foi surpreendente a vários níveis. Nunca pensei que os meus desenhos, tão básicos e primários, fossem o centro da minha profissão. E, para além de os desenhos serem péssimos, achava que este tipo de humor que tenho – a desconstrução da linguagem, ver o ridículo em todas as coisas, estar sempre atento o duplo significado – era algo limitado ao meu grupo de amigos. Perceber que, afinal, há muita gente com a mesma afinação, que sabem ler a minha pauta, foi incrível. Às vezes penso assim: se isto correu tão bem com uma coisa que não sei fazer, imagina se um dia faço algo que sei fazer! [risos] Até hoje, quando oiço chamarem-me ilustrador ou cartunista dá-me vontade de rir. Sempre achei que ia ser na escrita o meu caminho.
Hugo van der Ding
LL: O desenho surgiu como mais uma ferramenta para comunicares. Também fizeste televisão, rádio, teatro. Sentes que tens muito para dizer ao mundo?

HVDD: A escrita será aquilo que eu tenho para dizer ao mundo, estas outras coisas tenho começado de forma mais egoísta, porque são coisas que sempre quis experimentar. Sempre quis conhecer os bastidores e saber como se faz televisão, rádio ou teatro. No entanto, quer na televisão, quer na rádio, talvez tenha algo para dizer ao mundo sobre aquilo que pode ser o entretenimento. A rúbrica “Vamos todos Morrer” surgiu dessa visão. Acho que é possível aprender alguma coisa em momentos de entretenimento. E a verdade é que, quando as pessoas comentam sobre a rúbrica, dizem exatamente isso: “Rio-me, mas aprendo também algo de novo”.

LL: Achas que é possível rir de tudo, mesmo da morte?

HVDD: Sim. Arranjamos quase sempre um ângulo cómico. Há mortes estúpidas, há últimas frases que dão vontade de rir. E algo que me surpreendeu é que as crianças adoram o “Vamos todos Morrer”. Já tivemos uma criança, o Diogo, que nos escreveu a dizer que gostava muito do Gago Coutinho e a pedir para vir ao programa no dia em que falássemos dele. E foi! As crianças não colocam esse peso na morte, acho que é por isso.

LL: Essa rúbrica resultou num livro, lançado recentemente.

HVDD: Sim. É uma seleção de 140 biografias. Procurei que fosse o mais diversa possível, com o mesmo número de homens e mulheres e com representatividade dos cinco continentes. Esse processo não foi fácil e falo disso no livro. Até ao século XIX, esta diversidade não existe na historiografia europeia: só se fala de homens brancos. E não é que não existissem pessoas diferentes, com contribuições artísticas e na sociedade. Eram até a maioria, mas as suas histórias não eram ouvidas. É preciso que a história deixe de ser investigada e escrita só por homens brancos. Quando, por exemplo, uma mulher negra vai investigar sobre a história, tem do mesmo documento uma perspetiva diferente. Até há bem pouco tempo, não havia sequer biografias de todas as rainhas de Portugal, e estamos a falar das mulheres no seu mais alto nível social. Imagine-se o que falta contar!

“Vai haver uma altura em que me vou esconder, vou começar a escrever e vou ser mais feliz.”

LL: Já publicaste outros livros?

HVDD: Sim, há quase 10 anos, publiquei um livro com tiras da “Criada Malcriada”. E escrevi também um policial, editado pela editora do Fernando Alvim. Aliás, o livro surgiu assim. Ele disse que tinha a editora – “Cego, surdo e mudo” – e convidou-me a escrever o livro. Escrevi um policial. Escrevi-o numas férias em Amsterdão, em duas semanas. A Agatha Christie inventou praticamente todas as soluções para um crime e acho que criei outra que ela ainda não tinha experimentado. É lerem O inspetor acidental, que é surpreendente.

LL: Não foste advogado nem diplomata, agora já sabes “o que queres ser quando fores grande”?

HVDD: Quero ser escritor, mesmo! Estou a adorar tudo o que faço – a rádio, o teatro – mas sei que vai haver uma altura em que me vou esconder e começar a escrever – escrever a sério, romances, coisas como deve ser – e vou ser mais feliz.

LL: Não te faltam então ideias para livros, algumas já no papel, é isso?

HVDD: Sim. Escrevo desde criança e tenho milhares de livros começados. Adoro inventar títulos, primeiras frases e últimas frase de livros. Todos os meus projetos já têm estas três coisas. E já tenho alguns livros completos. Durante muito tempo, os meus livros eram coisas muito negras, seríssimas e pesadas, sem graça nenhuma. Depois de ter começado com as tiras, percebi que os temas podiam ser pesados na mesma, mas usados com graça e um certo humor negro. Isso mudou a minha vida! Agora, sei exatamente qual vai ser o primeiro livro que vou publicar e o estilo que quero seguir. O estilo que me diverte mais e com o qual consigo momentos de maior criatividade.

LL: Quais os autores que mais te inspiram?

HVDD: Estou sempre muito atento a escritores novos de diferentes países. Gosto muito de escritores paquistaneses, indianos, chineses, japoneses. Há muita coisa na literatura brasileira que me influencia, também. Há uma cadência na língua portuguesa escrita por brasileiros que eu acho incrível, nas obras de Rubem Fonseca ou do Nelson Rodrigues, por exemplo. Entre os escritores portugueses, claro que o Eça ou a Agustina são referências. Depois no espectro mais cómico, a nível internacional, a Nancy Mitford, o Evelyn Waugh, o E. M. Forster. São muitas vozes, e muito diferentes, mas são estes universos todos juntos que formam aquilo que eu gostava de fazer.

LL: Consegues eleger o livro que mais marcou a tua vida? Qual foi e porquê?

HVDD: Se calhar tenho um livro para cada fase da minha vida. É muito difícil escolher só um. Mas A Passagem para a Índia é, definitivamente, um dos livros da minha vida, quer pela escrita de Forster, quer pelo facto de o livro ser também a história dele, sobre a descoberta de si próprio. Até pelo facto de ele ter demorado tantos anos a escrevê-lo, porque precisou de encontrar a sua voz, é algo com o qual me identifico muito. Li-o, precisamente, antes de ir à Índia.

LL:  E se ficasses para sempre numa ilha deserta, que livro levarias contigo?

HVDD: Nesse caso, levava Anatomia da Errância, pelo valor emocional que tem o livro que a minha melhor amiga me ofereceu, porque é o livro que levo para todas as viagens e porque é um livro de viagens. Se ficasse para sempre numa ilha deserta, só com mar à volta, acho que ter um livro de viagens era a coisa mais fixe.