Quando o sonho é escrever: o que muda depois de vencer um prémio literário?

Dia Mundial do Sonho
Precisamente há um ano, no Dia Mundial do Sonho, foram anunciados os vencedores do concurso literário “Contos da Quarentena”.  Para assinalar a data, conversamos com Cláudia Barbieri, Cláudia Fernandes, Frederico Klumb, Helena Correia, Hugo Araújo, Márcio Cruzeiro e Mathieu Fleury, para perceber o que mudou no último ano.

Em 2020, durante o primeiro confinamento decorrente da pandemia da COVID-19, a Livraria Lello promoveu a libertação através da escrita, com um concurso na área do conto, destinado a novos talentos. Os seis melhores contos receberam um prémio monetário de mil euros cada um e foram publicados na obra Contos da Quarentena, editada pela Livraria Lello.

Vencer um concurso literário como este pode ser a concretização de um sonho, ou o início de um sonho maior. Um ano (e algumas quarentenas) depois, alguns dos premiados de “Contos da Quarentena” sofreram grandes mudanças nas suas vidas, outros nem por isso. Todos continuam a escrever.

Depois de um período de grande indefinição no sistema de ensino brasileiro, Cláudia Barbieri (Rio de Janeiro, Brasil) voltou a dar aulas na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e com carga horária reforçada. A autora de As Netas de Bernarda Alba continua a escrever contos e crónicas, sempre com a pesquisa histórica como mote principal. Ainda este ano, vai publicar o seu primeiro livro, resultado da investigação sobre a cidade de Lisboa na obra de Eça de Queirós.
 
Dia Mundial do Sonho

A estudante de música Helena Correia (Lisboa, Portugal) viu-se forçada a interromper o curso em Inglaterra, devido à pandemia, e voltou para casa da família. Num ano que classificou como “complicado”, a escrita funcionou como uma “terapia”, que ajudou a coautora de O Duelo a “aliviar o peso” de uma vida colocada em suspenso.

Márcio Cruzeiro (Goiânia, Brasil), considera que ganhar um concurso literário “foi transformador do ponto de vista da visibilidade e também de incentivo para a criação”. Entretanto, deixou um dos dois empregos que tinha e tem agora mais tempo para ler e escrever. Está a terminar um livro de contos, que pretende publicar em 2022 e tem já o projeto de um romance, para iniciar em seguida e publicar entre o final de 2022 e o início de 2023. O autor de 2 Bilhões escreve para “dar visibilidade aos invisíveis”, “as vítimas das amarguras criadas por uma sociedade egocêntrica: sem-abrigo, marginais, vítimas de preconceitos”.

Hugo Araújo (Viana do Castelo, Portugal) terminou o estágio como psicólogo, integrou a Ordem dos Psicólogos Portugueses, e está a trabalhar no Gabinete de Atendimento à Família de Viana do Castelo. O autor de Breve Relato da Loucura do Menino Jesus continua a escrever contos e a participar em concursos. Aproveita-os para “fazer experiências, em liberdade, sem pressões sobre coerência ou qualidade”.

“É muito bom ter eco do encontro das nossas ideias com o outro.” Mathieu Fleury

Já o enfermeiro Mathieu Fleury (Lisboa, Portugal) ainda divide o tempo entre a escrita, a ilustração e o hospital. Ganhar um prémio literário trouxe-lhe “ansiedade por continuar a escrever, com a responsabilidade acrescida” de o seu trabalho já ter sido reconhecido. Entretanto, começou a escrever um romance, que ficou a meio, para dar lugar a outro projeto: um livro de contos. Trata-se de “um conjunto de histórias, com personagens diferentes, todas em torno de uma mesma lavandaria self service”, avançou o autor de A Balada do Mamífero.

Nos dias de hoje, para Frederico Klumb (Rio de Janeiro, Brasil), a escrita, seja da sua tese de mestrado, seja de poemas e contos, é a atividade principal. No último ano, o autor de Os Gatos, fechou contrato com uma editora, para a publicação do seu primeiro livro de contos. A obra, que começou a preparar há três anos, será publicada no final do primeiro semestre do 2022. A participação no concurso “Contos da Quarentena” foi “importante no processo de criação deste livro, pois serviu como teste para algumas soluções de escrita”.

Por último, Cláudia Fernandes (Lisboa, Portugal), que, em conjunto com Helena Correia, escreveu O Duelo, continua a ser instrutora de Ioga e a dedicar-se profissionalmente à escrita, como Cláudia Andrade. Esta semana publicou o seu terceiro livro: Um pouco de cinza e glória. Ainda em 2021, recebeu uma bolsa literária da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLab), para a produção literária no contexto da pandemia.

 
O meu maior Sonho é...