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Miguel Torga: Um escritor antirregime protegido pela editora de Salazar

A biblioteca de um rei colecionador de livros

Uma editora fundada por Salazar a publicar livros antirregime? Parece impossível, mas aconteceu. Descubra como as estórias de Miguel Torga, o escritor mais censurado durante o Estado Novo, marcaram a história da Coimbra Editora.


O calendário marcava 12 de agosto de 1907, quando nascia Adolfo Correia da Rocha, mais conhecido pelo pseudónimo literário Miguel Torga. Miguel em homenagem aos Migueis, Cervantes e Unamuno, com quem se identificava. Torga numa ode às serras transmontanas cobertas de urzes (torgas), onde cresceu e para onde sempre voltou. Formou-se médico depois de regressar do Brasil e, durante a sua carreira, escreveu poesia, romance e teatro. Ganhou vários prémios literários, entre eles o Prémio Camões, em 1989, e foi várias vezes indicado para o Prémio Nobel da Literatura. Morreu aos 87 anos, em Coimbra.

Também em agosto, mas de 1920, um grupo de intelectuais da Universidade de Coimbra decide, com auxílio de dois experientes livreiros e mestres na arte da impressão, formar uma sociedade empenhada no desenvolvimento cultural do País. Era o início da Coimbra Editora, uma editora que, mais tarde, se viria a transformar numa referência na literatura académica nacional, especialmente nas áreas do direito e da literatura.

No grupo de fundadores desta editora há, no entanto, um nome que se destaca: António de Oliveira Salazar. O ditador nacionalista português, formado em direito e economia em Coimbra, foi chamado a assumir a pasta das finanças dois anos após o golpe militar de 1926. Ascendeu a presidente do Conselho de Ministros em 1932 e, no ano seguinte, fez aprovar uma nova constituição que lhe conferia poderes ditatoriais e dava início ao Estado Novo.

Durante os 40 anos deste regime, a Coimbra Editora foi, sem grandes surpresas, uma das editoras do Estado Novo, editando, publicando e distribuindo obras de propaganda ao regime. Contudo, enquanto imprimia livros do próprio líder do governo, António Salazar, nas suas máquinas eram impressas obras daquele que foi o escritor mais censurado pelo regime.
 

Um autor perseguido pelo Estado Novo

Miguel Torga foi um forte crítico do Estado Novo. Viu 13 dos seus livros fustigados pelo ‘lápis azul’ da censura, foi preso na década de 30 e teve a sua vida pessoal escrutinada, não só pela Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), mas também pela Comissão de Censura. Desde violações da sua correspondência, registo das suas viagens e encontros com amigos, e até anotações dos seus rendimentos como médico, está tudo documentado, em detalhe, nos processos da PIDE, depositados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

 
O autor estava ciente da obsessão que a polícia política tinha por si. Apesar de ter sido várias vezes perseguido e interpretado pela PIDE, continuou a publicar os seus livros, “sem os sujeitar ao aviso prévio da censura”. Mais do que isso, por ter sido apelidado de escritor comunista, Miguel Torga chegou mesmo a enviar um livro a Salazar para que o ditador pudesse comprovar se a sua escrita era realmente a de um comunista.

Apesar de ter sido, durante muito anos, editor dos seus próprios livros, o escritor transmontano contou com a conivência, entre outras, da Coimbra Editora. Apesar de ser conotada como uma editora pró-regime, a editora coimbrã foi uma das casas que escondeu e protegeu as publicações de Torga, evitando que estas fossem apreendidas e destruídas pela PIDE.

 

Espólio da Coimbra Editora na Livraria Lello

No espólio da Coimbra Editora que a Livraria Lello comprou em 2020, foram encontradas várias obras de Miguel Torga, incluindo primeiras edições, que comprovam a atividade clandestina desta editora histórica durante o Estado Novo. Bichos, A Criação do MundoVindima, Os Novos Contos da Montanha e Rua são alguns dos livros que, apesar de proibidos pela PIDE, foram distribuídos com o cunho da editora. Estes livros de Miguel Torga, bem como publicações de António Salazar e Marcelo Caetano e obras de Vergílio Ferreira e Eugénio de Andrade, estão em exposição na GEMMA, num espaço que a Livraria Lello dedicou à preservação do património histórico da editora que fechou portas no ano em que celebrava 100 anos de existência.