Sendo os outros

"Os livros, nos seus delírios e excessos, na sua imensa grandeza, dão-nos a única sanidade possível, aquela que nos faz viver a vida sem pesadelos e constrangimentos, que nos permite vivê-la com intensidade e que, sem lá estar, possamos estar em todas as paisagens que imaginamos a ler."

Por vezes, quando a noite está mais escura, sonho que uma terrível pandemia se abate sobre o mundo. Um vento glacial e venenoso sopra pelas ruas desertas e tranca-nos nas nossas casas. De repente, a vida pára à nossa porta: não a atravessa nem a deixamos entrar, permanece antes agachada no patamar como um animal ferido de morte. E tudo o que nos apetece fazer é chorar. No meu pesadelo faltam-nos vozes, somos uma ausência de carícias, o gesto quebrado de um beijo não dado e de um abraço desperdiçado, a terrível solidão das pálpebras que se fecham diante de tanta dor. Os ecrãs, todos os ecrãs, falam dos mortos, de muitos mortos, e julgamos vê-los das nossas janelas naquela escuridão que parece nunca passar, enquanto as sirenes soam e não sabemos se desta vez vêm por nós.


Por vezes, quando a noite está mais escura, somos apenas um feixe de medo e clausura. Os nossos fantasmas escrevem boletins de guerra, seguram armas carregadas de desespero contra nós e pegam nos microfones para sussurrar o medo, a mesquinhez e o egoísmo.

Tive um pesadelo e o meu pesadelo tornou-se real, colectivo. E, de repente, fomos condenados à imobilidade. De repente ficámos enclausurados, isolados, distantes uns dos outros, a uma distância emocional tão grande que não correspondia aos poucos ou muitos quilómetros reais que nos separavam dos nossos entes queridos, dos nossos amigos. Também dos nossos mortos.

Às apalpadelas, acendi a luz da mesa-de-cabeceira. Como habitualmente, descansavam aí um punhado de livros na costumeira desordem, sem obedecer a qualquer cânone, alguns comprados recentemente e outros lá desde sempre: um Stefan Zweig, um romance de Dulce Maria Cardoso, um Patrick Modiano, o exemplar perene de Dom Quixote editado pela Real Academia de la Lengua Española, um Jakob Wassermann, a Bíblia por ser narrativa de narrativas, um Theodor Kallifatides, um livro de poemas de Nuno Júdice... Os meus dedos encontraram-nos. A noite deixou, de certa forma, de ser tão escura. Os livros, nos seus delírios e excessos, na sua imensa grandeza, dão-nos a única sanidade possível, aquela que nos faz viver a vida sem pesadelos e constrangimentos, que nos permite vivê-la com intensidade e que, sem lá estar, possamos estar em todas as paisagens que imaginamos a ler. Que, em suma, sendo nós próprios sejamos os outros em todos os lugares, em todos os momentos, pronunciando em voz alta o verso de Maria do Rosário Pedreira: "A vida, por um instante, é enorme". 

Iñaki Abad
Diretor Instituto Cervantes Lisboa

 


SOBRE O AUTOR: 

Iñaki Abad Leguina (Bilbao, Espanha, 1963) é licenciado em Filologia Hispânica pela Universidade de Deusto, trabalhou como jornalista antes de se mudar para Itália para ensinar na Universidade de Catania. Desde 1991 trabalha no Instituto Cervantes, e tem sido diretor dos centros de Nápoles, Milão, Praga, Manchester-Leeds e Budapeste. Foi também Diretor Adjunto da Cultura e Diretor da Cultura em Madrid, na sede do Instituto Cervantes. Atualmente dirige o Instituto Cervantes em Lisboa. As suas publicações incluem a coleção de contos Barbarie y otros relatos (Editorial Lumen); El hábito de la guerra (Editorial Espasa-Calpe); Los malos adioses (Editorial Siruela) em português Livro Despedidas Fatais (Sextante Editora); e El doble (Los libros libérrimos). O seu último romance é Las amargas mandarinas (Editorial Huso).