A BALADA DO MAMÍFERO


No inverno de 2019, Ling Wenyi dirige-se ao mercado de Wuhan, com o propósito de comprar carne para um jantar romântico.

É belfo, pesam-lhe quatro décadas de solidão sobre os ombros e dúbias noções de higiene. Com um polegar verde e uma aptidão artística invulgar para trabalhar flores, alimenta o sonho de ser florista.

Num mercado oriental, fervilhante pelo vaivém caraterístico do comércio de rua de uma sociedade apressada e sem reparo, espera-o a carcaça de um pangolim, um animal selvagem regateado ilicitamente, que narra a história, desde a azáfama dos veios da selva até à envolvência do seu corpo morto em excrementos de morcego e papel de jornal, depositado no interior de um saco que, por infortúnio menor da vida, Ling transportará até sua casa para infortúnios maiores.

 Ao debruçar-se sobre o espaço interior de Ling, o Pangolim tece considerações sobre as suas circunstâncias, os dois lugares que tem para si no mundo: uma sumária casa de banho e o jardim legado pela mãe, por meio das amontoações de objetos que compõem a sua minúscula casa.

No seu trajeto final tem a possibilidade de conversar com três papoilas dentro de um tacho, à medida que Ling tece um derradeiro compromisso consigo próprio para agradar ao outro, na esperança de ser apreciado a seu justo valor. Mas, um mal-entendido de desfecho cruel, dar-lhe-á finalmente a raiva de assumir a sua falta de espaço, de intimidade, de ser, como uma falta de ar que irá distribuir pelo mundo.


Sobre O Autor - Mathieu Fleury


Natural de Paris, Mathieu Fleury é licenciado em enfermagem pela Universidade do Algarve e estudou desenho, pintura, ilustração e banda desenhada.


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