Entrevista a Teolinda Gersão

19 de março de 2019
A Livraria Lello entrevistou a autora Teolinda Gersão, durante a na apresentação do seu mais recente livro.

No passado dia 25 de Fevereiro, a Livraria Lello teve a oportunidade de entrevistar a escritora Teolinda Gersão no Espaço Vozes Vivas, no âmbito da apresentação do seu novo livro “Atrás da Porta e Outras Histórias”.

Autora de várias obras, sobretudo romances, Teolinda Gersão já viu os seus livros serem adaptados para novelas, curtas metragens e até para teatro, sendo que o seu último livro até então, “Prantos, Amores e Outros Desvarios” (2016), recebeu o Grande Prémio de Conto “Camilo Castelo Branco”.


Livraria Lello (LL): Porque escolheu a Livraria Lello para fazer esta apresentação do seu novo livro?
 
Teolinda Gersão (TG): A Livraria Lello, muito gentilmente, já me convidou várias vezes no Dia do Autor, em vários dias ligados à literatura. Convidaram-me para vir tomar um (vinho do) Porto com os leitores e estar aqui num fim de tarde em conversa com as pessoas. Mas como eu moro em Lisboa, fica complicado, até porque depois ficava tarde e era difícil arranjar comboio para chegar a Lisboa a uma hora não muito tardia, havia sempre esses problemas logísticos. Mas eu sempre gostei imenso da Livraria Lello. Quem não gosta? É uma das mais bonitas do mundo, senão a mais.
Então, como agora vim às Correntes D’Escrita e a uma escola, pensamos que era interessante fazer um lançamento, e uma vez que a Livraria Lello tem sido tão simpática comigo e já me convidou tantas vezes, sugeri à Porto Editora que perguntasse se havia interesse em apresentar o livro, porque ia cá estar e tenho imenso gosto em estar na Livraria Lello.
 
LL: Qual foi a sua inspiração para iniciar este livro?

TG: Eu já tinha pensado e escrito o mote deste livro quando houve a história daquelas crianças tailandesas, o mote é: se estiveres numa caverna num sítio escuro. Este é um livro que tem muitas histórias sem esperança, algumas são um murro no estômago, e eu pensei que muitas vezes, de facto, parece que não há luz nenhuma cá fora e temos que buscar forças a nós mesmos. Quando essa história correu o mundo e foi uma história que acabou bem, eu fiquei bastante impressionada, pois todas as crianças foram salvas. O guia também teve uma força espiritual muitíssimo grande ao fazer que as crianças se concentrassem com a mediação, com as crenças budistas, com as técnicas de respiração, de se acalmarem, de não terem medo e nunca perderem a esperança de que seriam encontrados. Mas na verdade, não foi daí que saiu o livro. Isso não foi o mote para o livro por isso nem situei, mas essa história para mim ficou sempre ligada à mesma ideia.

LL: Então foi recente a iniciação da escrita deste livro?

TG:  Não, antes já tinha escrito muitos pontos e já tinha escrito inclusive esse mote, mas só fiz a ligação na minha cabeça a essa história depois. Parecia que a história vinha ao encontro dessa sensação de desespero que depois acaba em esperança.

LL: Sente que ao longo do seu percurso, o seu modo e o processo da sua escrita se tem vindo a alterar? 

TG: É assim, eu não sou uma escritora que procure ou que naturalmente tenha uma fórmula.
Há grandes escritores que têm uma fórmula, por exemplo Saramago, que tem uma ideia brilhante e depois desenvolve. Ele próprio dizia, que os romances dele são a caminho de ensaios, porque são romances em que o pensamento e a ideia domina muito a história. O Lobo Antunes também tem um determinado formato que repete sempre. Mas eu não gostaria nada de ter um formato que repetisse, iria aborrecer-me muito, de modo que eu gosto de mudar e, embora sinta que trabalhe sem rede, no fundo eu comecei a publicar regularmente em 81, portanto há 39 anos, é assim uma loucura, ou 38 (anos).  Mas cada vez é como se o livro fosse o primeiro, e são todos diferentes.
Tenho cultivado fundamentalmente o romance, mas também os contos e uma outra forma (de escrita) que são uma espécie de anti-diários. Sobretudo porque saíram dois, que eu lhes chamei depois cadernos.
O primeiro foi Os Guarda-chuvas Cintilantes que comecei a escrever no Brasil e tem sido muitíssimo estudado lá, as pessoas aderiram de uma maneira fantástica. Mas aqui (em Portugal) é um livro que as pessoas não sabem o que fazer com ele, acham-no demasiado louco e não gostam porque é um livro completamente heterodoxo, diz por exemplo domingo 1 e depois terça 24 mas nunca se diz nem o mês nem o ano, portanto o tempo não existe, e o tempo é um pilar do diário e o eu também é um pilar do diário. É um livro onde há pequenos contos com muitas das minhas preocupações sociais e outras, mas onde há muito pouco da minha vida privada, para não dizer nada. Há assim umas referências, umas conversas com as minhas filhas que eram crianças e eu comecei a escrevê-lo no Brasil, que se calhar se fosse em Portugal não tinha essa ousadia. Mas o Brasil é tão solto e tão aberto ao impossível que me apeteceu escrever isso.
E muitos anos depois, portanto em 2013, saiu um segundo caderno que eu chamei “As Águas Livres” que não tem essa história de não ser datado e de ter dias, mas não é datado também, mas segue a mesma linha de que diz muito daquilo que eu penso, que eu sinto, que eu sonho por exemplo, também tem sonhos, mas da minha vida privada não tem nada. Acho que é um tipo de literatura que não tem muito público, mas que me agrada fazer.


LL: Reportando um pouco ao início e aos seus primeiros passos. Se pudesse deixar uma mensagem logo nos inícios, diria alguma coisa a si mesma? Algum conselho ou algo pudesse avisar para fazer diferente, ou não. 

TG: Os jovens quando às vezes me perguntam, eu respondo também com uma pergunta- Se não tiveres sucesso, continuas a escrever ou não? – e se me dizem que não, que querem ser conhecidos, ganhar dinheiro, ter uma carreira, etc, eu digo então não sei se vale a pena empenhares-te, porque tens 90% de probabilidades de não conseguir e depois é tremendamente frustrante. Se tu me dizes,- eu, mesmo que não tenha sucesso, é isto que eu quero fazer- então tens hipótese de realmente ter futuro como escritor. Mas é bom que tenhas uma forma de vida que te dê independência da escrita, porque assim não tens que fazer compromissos, pertences ao mundo do trabalho como toda a gente, tens menos tempo para escrever mas és completamente livre.
Eu tenho um neto que está nas Belas Artes, está em escultura e ele percebe isso bastante bem, ele também não quer ter compromissos, mas também percebe que é bem possível que não consiga viver só da criação e então em Portugal é muito difícil e cada vez mais.

LL:  É um desses casos em que antes de se dedicar em exclusivo à escrita, chegou a ser professora e só mais tarde acabou por se dedicar à escrita. 

TG:  Mas eu comecei a escrever desde a escola primária, e o meu primeiro livro, que eu não ponho na lista dos livros, porque eu não me sinto responsável pelo que escrevi com 11, 12, 13 anos, foi publicado quando eu tinha 14. Portanto, eu às vezes só refiro isso porque me dizem começaste tão tarde, só publicaste com 41 anos e eu digo não, os números são ao contrário, comecei com 14 e depois o livro a sério vem com 41. Porque quando o livro saiu, naquelas edições de autor que a gente paga para oferecer à família e aos amigos, as pessoas achavam muito engraçado. Mas eu sempre fui muito crítica daquilo que escrevo, eu consigo distanciar-me e ser crítica e perceber se a coisa está a sair bem ou se não está e posso levar o tempo que precisar. Já levei 5 anos a escrever um romance, normalmente levo uns 2, mas se prolongar, paciência, o livro só está pronto quando eu achar que me satisfaz, que não sei fazer melhor, mas que como está, está bem. Também tenho a sorte de ser independente e os editores não me pressionam, também não vivo da escrita portanto posso dar-me a esse luxo, que eu acho que é fantástico. Mas eu sempre quis ser escritora, e não foi um caminho novo, em que de repente aos 41 anos pensei: bem agora vou-me dedicar à escrita. Reformei-me mais cedo, com 50 e tal, para ter mais tempo para escrever e também fui penalizada obviamente no salário, na reforma, mas são escolhas e eu não estou arrependida.

LL:  Já que tocou nesse assunto, que demora cerca de 2 anos a escrever um livro, quanto tempo demorou a escrever este novo livro? 

TG: Demorei cerca de 2 anos, já o tinha entregue há vários meses e o anterior tinha saído em 2016. Demorou 2 anos que foi para sair agora.

LL:  Muito obrigada!

TG: Obrigada eu, tive muito gosto em conversar convosco.
A carregar
A carregar
Este site usa cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de navegação. Ao prosseguir estará a consentir a sua utilização.            
Ver Mais