Entrevista a João Tordo

16 de abril de 2019
A Livraria Lello conversou com o escritor João Tordo, durante a apresentação do seu novo romance.

No passado dia 29 de março, a Livraria Lello teve a oportunidade de estar à conversa com o escritor João Tordo, que escolheu a Livraria mais bonita do mundo para fazer a apresentação do seu novo romance “A Mulher Que Correu Atrás do Vento”.

João Tordo conta já com uma longa lista de títulos publicados, tanto nacional como internacionalmente, tendo sido vencedor do Prémio Literário José Saramago em 2009 com o seu livro “As Três Vidas e do Prémio GQ - Man of the Year Literatura em 2014.

A entrevista decorreu no Espaço Vozes Vivas da Livraria Lello, e foi registada em formato audiovisual e posteriormente transcrita.


Livraria Lello (LL): Olá João, bem-vindo à Livraria Lello! Porque escolheu este espaço para apresentar este novo livro? 

João Tordo (JT): Obrigado! A escolha foi uma curiosidade… Eu estava no México, em Guadalajara, na feira do livro onde Portugal foi país convidado no final do ano passado, e uma das pessoas que trabalha com vocês, o Adélio Gomes, convidou-me para fazer a apresentação na Livraria Lello. Eu sempre quis conhecer, mas por razões de logística acabávamos por ir sempre aos mesmos lugares, porque sabíamos que tínhamos público garantido. Sempre tive muita curiosidade em fazer apresentações na Livraria Lello… Porque é lindíssima, e este espaço (Vozes Vivas) também é muito curioso, ouvem-se os passos das pessoas lá em cima, é ótimo, acho que dá um ambiente muito especial. Depois disso, fomo-nos mantendo em contacto e acabamos por decidir vir cá fazer a apresentação deste romance.

LL: Qual foi o mote, a sua inspiração, para escrever este romance “A Mulher que Correu Atrás do Vento”? 

JT: Não há propriamente um mote. Há muito tempo que queria escrever um romance só com vozes femininas. Já tinha experimentado num outro livro, mas era apenas um capítulo curto. Neste livro quis escrever quatro mulheres como protagonistas.
O livro varre um tempo cronológico bastante grande, começa em 1892, finais do século XIX, na Alemanha, com a história de uma compositora clássica que comete um ato menos nobre ao roubar uma composição a um dos seus alunos, um rapaz de 13 anos. As outras protagonistas são mais do presente. Uma delas é a Lia, inspirada numa pessoa verdadeira, que foi abandonada pela mãe aos 4 anos e depois a Beatriz que é a narradora do livro.
Quis tecer uma história que percorresse mais de um século, mas no qual as personagens femininas se encontrassem profundamente ligadas sem saberem, como se o livro fosse uma descoberta, capítulo a capítulo.
 
LL: Sente que isso é o que vai distinguir este romance de todos os outros que já publicou?

JT: Neste sentido sim, em muitos dos meus livros tenho narradores masculinos, essencialmente porque sou homem e é mais fácil para mim escrever desse ponto de vista. O grande desafio deste livro foi precisamente usar outro ponto de vista, e perceber porquê que eu o queria fazer, e em que medida aquelas vozes estavam a falar comigo. Diz-se que os malucos ouvem vozes, mas quando um escritor começa a ouvir vozes isso é bom sinal, quer dizer que há alguém dentro de nós a querer falar connosco e eu tinha esta voz feminina muito forte a falar-me, mas durante muito tempo não tive coragem de arriscar, não me sentia preparado para isso.
As dificuldades também foram engraçadas, porque quando percebi que cresci com vozes femininas – com a Joana a minha irmã gémea, avós, tias-avós, a minha mãe… rodeado por um coro de mulheres – percebi que conhecia bem aquelas vozes. Foi precisamente esse exercício de ir buscar a minha infância que me ajudou muito a escrever este livro.
 
LL: Como foi o processo de escrita deste livro em particular?

JT: Eu tento deixar que as ideias se tornem férteis, e por isso posso começar a ter, por exemplo, uma ideia hoje e só começo a escrever o livro daqui a 3 anos e, entretanto, vou escrevendo outros. Isto aconteceu-me com este, eu já tinha a parte do livro que se passa no final do século XIX, já tinha essa ideia há vários anos, mas ainda não tinha encontrado uma razão para a escrever.
O que eu faço quando escrevo é fechar-me muito na minha escrita e todos os dias tenho um processo que parece um ritual em que acordo à mesma hora, começo a escrever à mesma hora, paro à mesma hora e ao fim de 3 a 4 meses tenho um primeiro rascunho que depois posso ir trabalhando com o tempo, que é o fator mais importante da equação, sem ele não há literatura.
Neste livro tive uma ajuda em particular, em meados de fevereiro de 2018, estava no terceiro capítulo, e de repente a voz da protagonista que é a Lia, teimava em não sair. Eu estava com muita dificuldade e  vinha de carro, numa viajem Lisboa - Porto, e, de repente, liguei o rádio e comecei a ouvir a Cristina Branco, a cantora, que estava a dar uma entrevista acerca do novo disco dela que ia sair nessa altura e passaram uma das canções… era tão bonita e foi tão emocionante ouvi-la naquele momento em particular, porque me mostrou o que eu não estava a fazer bem - eu estava a tentar escrever do ponto de vista duma miúda de 16 anos, quando o lógico e o mais sensível seria escrever do ponto de vista dessa mesma miúda mas mais velha.
A canção da Cristina Branco fala disso mesmo, fala sobre a idade e o envelhecer, sobre as rugas que vão aparecendo, e os joelhos que doem no inverno. Essa foi a minha ajuda.
 
LL: Para terminar, existe algum romance já na gaveta prestes a chegar?

JT: Sim, mas não queria falar muito acerca disso, para já. Ainda estamos a decidir para este ano, é capaz de acontecer uma surpresa. Depois para o próximo ano já tenho algumas coisas planeadas, mas ainda não sei bem.
Vamos ter de esperar… este livro acabou de sair também!

LL: Acredito que já haja qualquer coisa “no forno” que nos vai surpreender.

JT: Sim, claro que há.

LL: Muito obrigada, João!

JT: Obrigado eu, foi um prazer.

Após a intimista apresentação do seu livro, João Tordo abriu o diálogo com o publico e possibilitou a troca de opiniões e ideias, finalizando com uma sessão de autógrafos.
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