Incolecionável | Valter Hugo Mãe

29 de outubro de 2019
Que joias vivem para lá da Sala Gemma? Uma conversa em torno dos livros com personalidades que marcam a cultura portuguesa contemporânea.

O Segredo do Castelo do Terror, de Alfred Hitchcock, Lunário, de Al Berto, e A Metamorfose, de Kafka são alguns dos livros mais preciosos de Valter Hugo Mãe, um autor que é também ele uma gemma literária do Porto, do país e do mundo.
 
Livraria Lello: Possui algum livro especial, a que atribui particular importância ou valor? De que forma é que este o marcou enquanto escritor?

Valter Hugo Mãe: Entre os livros que guardo com maior preciosidade está desde logo o primeiro livro que comprei, quando tinha ainda 10 anos de idade, um livro do Alfred Hitchcock para adolescentes, chamado O Segredo do Castelo do Terror. Marcou uma viragem na minha vida. Alguma coisa me chamou a atenção naquela capa. Entendi, depois da leitura, que a realidade precisava de se fazer de fantasia.
Conservo ainda esse livro, que está entre aqueles que quero menos perder.

A juntar a esse estão edições, por exemplo, do Lunário do Al Berto, que o próprio me enviou com uma dedicatória muito poética e empenhada, que me comoveu na altura e continua a comover; livros assinados por José Saramago, por Eduardo Lourenço; algumas edições da Metamorfose do Franz Kafka, um livro que mudou também muita coisa na minha vida. Aquilo que perspetivei para o meu futuro enquanto escritor foi muito marcado pela Metamorfose de Kafka, que fui comprando em algumas viagens ao longo do tempo.

Muita poesia, que eu próprio editei, com muito orgulho. Fiz sair, por exemplo, a poesia completa de Daniel Faria, de Isabel de Sá, de Inês Lourenço... Uma larga panorâmica de edições em que pude estar na máquina feitora, e que também por isso entram na minha biblioteca com um carinho muito especial.

Ao fim de tantos anos – enfim, estou com 48 anos, mais do que algum dia pensei ter. Achava que as pessoas com 48 anos eram velhas e mais ou menos acabadas… agora percebo que não, percebo que são jovens e até relativamente inconscientes – ao fim destes 48 há uma acumulação de livros muito significativa, com os quais estabeleço uma relação muito forte, muito possessiva, de prazer, mesmo quando não os abro ou quando não os leio todos ou todos os dias. A proximidade, o saber que eles estão ali, participa profundamente da minha felicidade.
Um dia talvez mostre a minha biblioteca de outra forma, por enquanto fica assim dita nestas breves palavras.


Créditos Fotografia: Nelson d'Aires

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